Gaúcho se considera prudente mas responsabiliza outros por excessos no trânsito, diz estudo.
Motorista tem dificuldade em perceber próprios erros; tem distorção entre a imagem de si próprio em comparação com a que faz dos outros.
24 de julho de 2010
O gaúcho se considera um motorista responsável e culpa os demais pelos perigos do trânsito. A distorção entre a imagem que o condutor tem de si, em comparação com a que faz dos outros, é uma das principais conclusões de uma pesquisa divulgada ontem pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran), na Capital.
Realizado entre dezembro e março por duas dezenas de pesquisadores, o levantamento estende para o Rio Grande do Sul percepções sobre o comportamento dos motoristas identificadas em Porto Alegre, pela Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), em estudo de 2009.
Agora, por exemplo, 69,1% dos motoristas entrevistados em 20 municípios disseram não cometer imprudências, mas 88% avaliaram que o mesmo não ocorre com os outros à volta. Do total, 90,6% ainda relataram que não receberam multas nos últimos 12 meses e 97,6% não se envolveram em acidentes no mesmo período.
A contradição de pensamento fica evidente em vários pontos. Enquanto 82,2% dizem respeitar os limites de velocidade, 55,8% observam que os outros não seguem essa regra. Em uma escala de zero a 10, o gaúcho avalia que está em 8,4 no quesito conhecimentos das leis de trânsito. Quando analisa os outros, ele acha que sabem menos: 6,2.
- As pessoas sabem dos problemas, mas não acham que são responsáveis por eles. A pesquisa traz indagações que vamos analisar para fazer um diagnóstico preciso e promover ações educativas - afirma o diretor-presidente do Detran, Sergio Filomena.
O levantamento, realizado para cumprir norma do Conselho Nacional de Trânsito que prevê pesquisas para embasar campanhas de trânsito, também mostra que o comportamento dos outros gera sentimento de insegurança. Mais da metade dos motoristas ouvidos diz se sentir inseguro porque os demais condutores não respeitam leis, são imprudentes e mal-educados.
Pela ordem, Passo Fundo, Pelotas e Caxias do Sul têm os motoristas mais receosos, superando cidades com pior trânsito como Canoas e Porto Alegre. Nos mais de 2 mil questionários preenchidos em municípios de diferentes portes, nem todos eram motoristas.
Especialistas apontam excesso de individualismo
A psicóloga Bárbara Dresch, sócia da Focal Pesquisas, responsável pelo estudo, conclui que a situação do trânsito indica individualismo, falta de cordialidade e disputa irracional pelo espaço urbano:
- Esse individualismo está associado ao momento atual, ao ritmo da vida moderna, e acaba se refletindo no trânsito.
A pesquisa também revela que o pior problema do trânsito, na visão dos entrevistados, não são os congestionamentos, mas a falta de atenção em ruas e estradas. Especialista em trânsito e transporte, o engenheiro civil João Fortini Albano, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), avalia que a pesquisa do Detran confirma o que se percebe na prática:
- A pesquisa espelha a realidade do pensamento dos usuários do sistema de trânsito. Os motoristas pensam individualmente, quando deveriam se inserir no coletivo. Por isso, as campanhas de trânsito não têm tanto efeito: os motoristas já se acham prudentes.
Saiba mais sobre o levantamento
Como você define os motoristas da sua cidade
351 foram as citações positivas (respeitam as leis, prudentes, bons motoristas)
2.779 foram as negativas (imprudentes, mal-educados, não respeitam as leis)
O perfil dos entrevistados
Homens 48%
Mulheres 52%
Não tem habilitação 59,1%
Tem habilitação 40,9%
''O motorista tem dificuldade para assumir a agressividade''
Membro da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, o psiquiatra Fernando Grilo Gomes analisa que as diferentes visões do motorista gaúcho sobre si e sobre os outros estão na dificuldade das pessoas de reconhecer seus defeitos.
Para o especialista, as pessoas se sentem poderosas dentro de seus carros, o que leva ao sentimento de superioridade e de pouca cordialidade sobre os demais envolvidos no trânsito. Ontem à noite, ele conversou por telefone com Zero Hora:
Zero Hora - Por que as pessoas se consideram bons motoristas e veem os outros como ruins?
Fernando Grilo Gomes - As pessoas sabem que têm defeitos, mas costumam colocá-los fora de si. O motorista tem dificuldade para identificar e assumir seu comportamento errado e sua agressividade no trânsito. Por isso, a tendência é colocar a responsabilidade nos outros. O problema é não perceber que esse comportamento coloca a própria vida e a das outras pessoas em risco. E não é só no trânsito, é em todas as atividades da vida que isso acontece.
ZH - Por que algumas pessoas se transformam quando estão ao volante?
Gomes - Como diz uma frase conhecida, para conhecer uma pessoa, dê poder a ela. Dentro de um carro, as pessoas se sentem poderosas. Com a potência do carro, é como se pudessem mostrar toda a sua superioridade sobre as demais. Então, transformam o ato de dirigir numa competição em vez de uma condução propriamente dita.
ZH - Então a vida que as pessoas levam nas outras atividades da vida se relaciona diretamente com a forma como elas agem no trânsito?
Gomes - Certamente. Esses motoristas que se expõem ao perigo normalmente não têm como mostrar essa parte agressiva e instintiva a não ser no trânsito, onde isso costuma aparecer.
ZH - E onde se encontra a explicação para a falta de cordialidade no trânsito?
Gomes - Porque dirigir se transforma numa competição. A parte racional do dirigir fica fora do primeiro plano, então o motorista vê o outro não como alguém com quem se divide o mesmo espaço, mas como um inimigo. Um inimigo que tu tens de superar e vencer. E a cordialidade, claro, desaparece. É como num jogo de futebol, em que se vê jogadores amigos, que se abraçam, se cumprimentam, mas na hora que o jogo começa, sai da frente. Aí é cada um por si.
ZH - De que forma esse clima de animosidade se reflete nas outras atividades, acaba tendo mais reflexos negativos?
Gomes - No esporte aparece, como falei. O trânsito se presta mais para isso em função da máquina, porque ali não é a força do homem. A força fica representada pela máquina que ele está dirigindo. Então, alguém que se sente fraco pode superar o outro por ter uma máquina mais potente, mais veloz, por ser mais audacioso.
ZH - Como é possível mudar o comportamento dos motoristas para se ter um trânsito mais seguro?
Gomes - Tem duas coisas fundamentais. Uma é a educação para o trânsito, a prevenção disso. Mas educação não é só na escola, mas também dentro de casa. Os pais têm papel fundamental pelo exemplo que eles dão. Não adianta dizer para o filho ''não ultrapassa o sinal vermelho'' se ele dirige e ultrapassa. E a segunda coisa que considero importante é a punição. Acho que, nós homens, ainda conseguimos viver em sociedade porque há um limite. O que a gente vê, infelizmente, é uma impunidade muito grande. Então, o motorista comete infração e se envolve em acidentes e vemos que não é punido. Infelizmente, a nossa lei está falhando nesse sentido.
Fontes: Perkons - Zero Hora
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