Leniência no fim do túnel (Editorial).
22/07/2010
A MORTE DO ESTUDANTE e músico Rafael Mascarenhas, de 18 anos, filho da atriz Cissa
Guimarães, é um daqueles casos em que afloram como nunca características deletérias da sociedade e do
Estado brasileiro, como o desrespeito às leis, a leniência do poder público e o tratamento diferenciado
da polícia para criminosos, dependendo de que classe social eles provêm.
Rafael Mascarenhas foi atropelado na madrugada de anteontem, quando andava de skate no Túnel
Acústico (extensão do Túnel Zuzu Angel), na Zona Sul do Rio, num momento em que a via estava
interditada para manutenção. O que Rafael fazia não é permitido, mas não justifica uma série de erros e
absurdos muito piores que acompanham os detalhes do episódio trágico, num discurso covarde de
culpabilização da vítima.
Em primeiro lugar, há o erro primordial. Não é difícil entender como um jovem conseguiria aproveitar a
distração do controle de trânsito e aproveitar a pista sem tráfego para exercer sua paixão. Mas o que
dizer de carros em alta velocidade, batendo pega? Obviamente, houve falhas dos responsáveis pela
operação de fechamento do túnel. O Siena preto que atingiu Rafael e o Honda Civic, com o qual,
suspeita-se, disputava uma corrida, invadiram a via interditada ao passar pelo vão de serviço entre as
duas galerias. Deveria haver uma barreira ali. Foi apenas a primeira falha.
Em seguida, depois de atropelar o estudante, o motorista Rafael de Souza Bussanra e seus colegas de
racha não prestaram socorro e ainda conseguiram sair tranquilamente do túnel, passando por uma
patrulha da PM, que os liberou.
Aqui, a polícia cometeu ao mesmo tempo três falhas graves. Não deteve os transgressores, que não
poderiam estar circulando pela via interditada; não os prendeu, já que tinham acabado de provocar uma
morte; e não preservou o local do acidente.
No primeiro instante, uma nota divulgada pela PM informou que a patrulha não tinha como desconfiar
do atropelamento, pois o carro estava com a documentação em dia e em bom estado. A versão não
resistiu aos fatos. Ontem, o veículo foi recolhido apresentando danos como o capô da frente totalmente
amassado e sem o vidro dianteiro. Ou seja, o automóvel do atropelador estava destruído, tinha acabado
de sair de uma via interditada e, ainda assim, foi liberado. Pior: os PMs teriam sido avisados do acidente,
pelo motorista, mas apenas o orientaram a dirigir-se à delegacia, o que o atropelador só fez mais tarde,
ao entregar-se.
É impressionante como o caso reúne sintomas de descaso, banalização da vida humana e privilégio.
Além de liberado pela patrulha após o acidente, o motorista, de classe média, foi liberado também na
delegacia, por ter endereço fixo. Deverá responder por homicídio culposo (quando não há intenção de
matar). Mas não foi indiciado. Caso diferente do flanelinha que, como divulgado esta semana, pegou um
carro do qual tomava conta, e atropelou uma pessoa, matando-a. Já está preso.
Fontes: Denatran Clipping - Jornal do Brasil
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